Há algum tempo começaram a me surgir algumas dúvidas e inquietações acerca dessa política transloucada que insistimos chamar de democracia.
Permita-me então fazer algumas considerações sobre o que vivemos e sobre o que viria a ser democracia:
Democracia implica em governo de um povo, não de uma aristocracia industrial que detém o poder econômico e se utiliza de muita articulação política para favorecer seus fins mais escusos de politicagem. Assim, construi para mim uma série de elementos do que seria efetivamente democracia:
- Governo onde há uma quase total horizontalização nas relações entre os seres constituintes desse Estado ou sociedade;
- Espaço político onde as vontades gerais guiariam a sociedade para um bem comum, que supera em muito as vontades individuais/particulares (pego carona aqui no pensamento de Jean-Jacques Rousseau*);
- Como todos poderiam inferir pela simples análise da nomeclatura, a democracia seria a assunção de um governo onde todas as camadas da sociedade participariam ativamente da vida política, ou seja, não haveria necessidade nenhuma de representatividade e a própria assunção de um caráter omissivo teria uma significação política distante do sentimento de alienação de alguns direitos de cunho político. Assim, etimologicamente teremos:
- DEMO - povo;
- KRATOS - governo.
- Quanto ao modo de governar, pareceu-me elementar que os debates políticos (ocorrido em todos os setores da sociedade) seriam profundos e abrangentes (uma análise do panorama), visando ocorrer de forma mais clara e voltada não à movimentação das massas mas à conscientização da população de forma que, através da razão, se possa propor uma intervenção efetivamente justa no modo de conceber e agir dentro da multifacetada área da política.
De posse desses pensamentos, eu novamente questiono sobre o nosso pensamento de democracia:
Poderíamos, sob alguma hipótese conceber, na conjuntura atual, um pensamento tido como democrático?
Poderíamos perceber as forças que movem a política? As forças que nos movem e que, de certa forma, nos movimenta quando não nos controla?
Na atual gestão deste sistema neoliberal que rege nossa economia e, por conseguinte, nosso governo, mostra que muitos discursos são vendidos e, de forma acrítica, comprado pela parcela esmagadora da população brasileira...
Somos bombardeados diariamente por discursos vazios e cheios de uma inútil prolixidade, de uma oratória decrépita e disforme, de um cinismo puritano (perdão pelo uso desta expressão carregada de uma carga valorativa de cunho perjorativo adquirida no transcorrer da história) que faz com que acreditemos nos discursos mais pobres em relação a referências teóricas e mais escorregadios quanto à aplicabilidade e responsabilidade social.
Para mim, este não é o modelo de democracia exercida de fato e de direito.
É apenas uma representação, um esboço ainda muito rústico do que vem a ser efetivamente democracia.
Estamos caminhando (a passos curtos, inseguros, subconscientes e ainda pouco seguros) para quem sabe um dia chegarmos à tão aguardada democracia.
Seguindo também o mesmo raciocínio que Jayme Paviani** desenvolveu pautado nos ideais platônicos onde a democracia tenderia a eliminar certos "desvios" da conduta moral esperada em todo cidadão e serviria principalmente para normatizar a sociedade e normalizar os ânimos dos constituintes da sociedade.
Rousseau dizia que, vivendo em sociedade, somos obrigados a ser livres mas na liberdade das coisas se encontram algumas particularidades:
* - Ver "Do Contrato Social - Princípios do direito político. ROUSSEAU, Jean-Jacques. Tradução de J. Cretella Jr. e Agnes Cretella - 2ª edição revisada da tradução. São Paulo. Editora Revista dos Tribunais, 2008."
** - Ver "Platão & A República. PAVIANI, Jayme. Coleção Passo-a-passo - Filosofia. Rio de Janeiro. Jorge Zahar Editora, 2003. "
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